quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

deusa fogo






sei que existe uma deusa que nos lava por dentro
quando nos esquecemos de olhar para as crianças
que um dia fomos na inocência do fogo
que acende cada segundo dentro do coração
a vida espera ainda por nós muito além da memória
onde os anjos dançam as suas subtilezas dançam
despidos dos dias que passaram e ainda vão passar
dançam bebendo a luz de cada momento
dançam desenhando os círculos da comunhão
dançam ébrios de consciência luminosa
e as suas asas de carne purificada
cantam os hinos pelos quais esperamos  um dia salvar-nos
de não sermos quem somos  um dia lembrar-nos
de como seremos uma raíz celeste que sobe
até à copa dos astros que nos semeiam









quarta-feira, 28 de novembro de 2012

haiku












o dia nasce dentro do azul
ascende ao céu um pombo
estalando as asas no lombo












sexta-feira, 9 de novembro de 2012

the glorious land




the glorious land        ( soundtrack PJ Harvey)


este meu corpo não é apenas um cume de carne em forma de corneta
erguida troando a inocência selvagem que respira
o meu lobo solitário no campo de batalha anunciando
o amor o amor o amor
cada vez mais vivo jorrando jorrando jorrando
de cada ferida em floração o amor
cada vez mais vermelho intenso subtil florido
como as abelhas tontas pelo aroma do pólen dançando 
nos pulsos do tenente exangue no campo de batalha
mas ainda ainda ainda com a expressão da amada estampada
nos lábios sorrindo entre os dentes e a língua
quase morta ainda molhada


e por quem somos e somos e somos
esta massa humana gloriosa esta trágica história
se somos e somos e somos esta taça mergulhada erguida
do nosso próprio riso suado de loucura


que sim que também somos a nossa própria armadura
a nossa própria corneta a nossa própria carne
a nossa própria memória a nossa própria redenção
iluminando o caminho do nosso próprio amor a nossa
infindável glória oh glória oh glória oh glória
somos nós nascidos da nossa mais pura
simples inverosímil convocatória


três vezes brindemos atravessando as barreiras as barreiras e as barreiras
do lado de dentro das barricadas jaz agora o inimigo
morto para a morte e renascido 
como amante sem fronteiras


três vezes brindemos atravessando as barreiras as barreiras e as barreiras
glória oh glória oh glória a nossa beleza brilhando
por dentro do dentro de todas as maneiras


glória oh glória oh glória
do nosso próprio riso suado de loucura
somos nós nascidos da nossa mais pura
nobre visceral convocatória















terça-feira, 30 de outubro de 2012

respirar







o poema nasce quando 


se limpa o espaço à volta


e as palavras podem brilhar









sexta-feira, 19 de outubro de 2012

terra






um planeta redondo inteiro
imerso no primeiro espermatozóide
acende faróis inteiros na consciência
quem sou  eu ?

um minúsculo astronauta dobrando joelhos gigantes
soprando papoilas vermelhas com amor de mãe
observando os globos dos olhos descendo com as pétalas
até pousar na coroa da Terra

todos esses mundos nascem dentro de mim
dentro do meu próprio astronauta que arrisca
novos passos em silêncio

eu sou a seiva sou a a raíz
da lava que acende a vida

as minhas pernas são feitas de terra vermelha
a minha barriga é um rolo de barro amarelo e luminoso
os meus braços foram plantados na massa verde das estrelas
a minha cabeça de príncipe é um asteróide violeta

todas as células do meu corpo
dão as mãos como crianças
dançando
as plantas dos pés na relva
celebram o caule a florescer em corola
soltando movimentos desenhados no infinito
com  o peito na cabeça e a cabeça no peito

sou uma fábrica de energia limpa
livre ilimitada gratuita

as minhas mãos são férteis como a terra
os meus dedos passeiam
anéis giratórios de luz
formando Tórus dentro de Tórus dentro de Tórus

respiro           amo           sinto

renasço           vivo           limpo

a minha nave são flores submersas
no magnetismo amoroso das árvores

afinal sou
um vazio tão fértil

as papoilas sobem os ventos ao contrário
como salmões vibrantes insurrectos
desejosos de nascer

a vida na terra acontece
como o riso dentro das estrelas




quinta-feira, 11 de outubro de 2012

beijo





a manhã subia pela terra
 cresciam sementes de ouro 
galopavam espigas de mel

apeado sem sela nem corcel
flori e apenas disse sim 
em vez de não


 e o sol quente 
na tua boca de repente
sabia a miolo de pão