segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

um anjo vagabundo





ontem parei, olhei e vi
uma pedrinha no chão e desde aí
os meus joelhos só querem ajoelhar-se
as minhas mãos voltar ao chão e o coração
é um mendigo em frente ao prato quente
sem saber se há-de chorar, comer ou orar  

a pedrinha, disse um anjo vagabundo, foi
tirada do fundo da primeira pedra aquela
que deus plantou quando fez o mundo

deus é portanto jardineiro e escultor e
o primeiro cientista da matéria do amor

com certeza não vos peço que acreditem
se os vossos como os meus joelhos sentissem
o florir do big bang a baptizar-vos o peito
transformando cada pedra num cristal fecundo

suspeito que então vos cairia o respeito no alento
que neste momento vos chega ao prato
 no relato de um anjo vagabundo






sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

anjos e afins



anjos arcanjos
querubins e seres afins
venha a nós a vossa glória
renovando a nossa história

 nós por nossos meios sem rodeios
contaminámos os fins








segunda-feira, 30 de setembro de 2013

silêncio macio









as flores podem ser felizes
disse uma espécie de principezinho
que vive sem abrigo no meu coração
pois podem foi o que eu pensei
mas não disse nada preferi aproveitar
o silêncio macio que as palavras
iam semeando à medida que
deixavam de se ouvir 







Pintura: "O Homem Novo", de Dora Condessa

segunda-feira, 17 de junho de 2013

primavera




reparei na porta fechada 
comigo lá dentro aprendi 
a fechar o bico com cuidado
enquanto as estações corriam
depois da última carruagem-silêncio
apareceu um pássaro: 1 pássaro 
o alvorecer do coração: 
olha, bebe, disse o pássaro
e as maravilhas voaram 
dentro de grandes chávenas de loiça
olha, bebe, disse o coração
era um pássaro
era a infância 
dentro de grandes chávenas de loiça
disse o pássaro
abrindo 
as portas das aortas










quinta-feira, 21 de março de 2013

visita







hoje de manhã durante
a visita do grande gigante
que habita todas as pessoas
que honram outras pessoas
vi uma multidão de lágrimas
descendo descalça até à cidade
pelas minhas faces comovidas
trazendo em bandejas coloridas
dois decilitros de humildade

dobro uma vénia com carinho
a minha alma canta baixinho
o hino de quem se reconhece
e agradece a breve graça
de lhe chamares tua
e seres tu minha 
tão doce humanidade












sábado, 16 de fevereiro de 2013

coração






mergulho afundo olhos dedos 
apalpo-me por dentro avanço sem medir as raízes
a minha árvore medita no meio da floresta
atravesso o mundo nas galochas da infância
pés encostados aos mindinhos da inocência
embalados na descoberta alegre das coisas
a máquina do mundo abrindo as suas gavetas
de repente o que é isto o que se passa
uma massa esponjosa vermelho veludo uma tontura
a vida oferece-me o coração em primeira mão 
deixo-me levar pelo susto ou embalo no êxtase
a escolha é a mãe da experiência sussurram pirilampos
inseminando pequenas palavras luminosas no interior dos galhos
as minhas artérias ressentem-se revolvem-se recriam-se
eu agora em pé em frente ao coração nú
eu agora nú em frente ao coracão nú
eu agora eu em frente
eu agora eu
, coração