quinta-feira, 21 de março de 2013

visita







hoje de manhã durante
a visita do grande gigante
que habita todas as pessoas
que honram outras pessoas
vi uma multidão de lágrimas
descendo descalça até à cidade
pelas minhas faces comovidas
trazendo em bandejas coloridas
dois decilitros de humildade

dobro uma vénia com carinho
a minha alma canta baixinho
o hino de quem se reconhece
e agradece a breve graça
de lhe chamares tua
e seres tu minha 
tão doce humanidade












sábado, 16 de fevereiro de 2013

coração






mergulho afundo olhos dedos 
apalpo-me por dentro avanço sem medir as raízes
a minha árvore medita no meio da floresta
atravesso o mundo nas galochas da infância
pés encostados aos mindinhos da inocência
embalados na descoberta alegre das coisas
a máquina do mundo abrindo as suas gavetas
de repente o que é isto o que se passa
uma massa esponjosa vermelho veludo uma tontura
a vida oferece-me o coração em primeira mão 
deixo-me levar pelo susto ou embalo no êxtase
a escolha é a mãe da experiência sussurram pirilampos
inseminando pequenas palavras luminosas no interior dos galhos
as minhas artérias ressentem-se revolvem-se recriam-se
eu agora em pé em frente ao coração nú
eu agora nú em frente ao coracão nú
eu agora eu em frente
eu agora eu
, coração









quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

deusa fogo






sei que existe uma deusa que nos lava por dentro
quando nos esquecemos de olhar para as crianças
que um dia fomos na inocência do fogo
que acende cada segundo dentro do coração
a vida espera ainda por nós muito além da memória
onde os anjos dançam as suas subtilezas dançam
despidos dos dias que passaram e ainda vão passar
dançam bebendo a luz de cada momento
dançam desenhando os círculos da comunhão
dançam ébrios de consciência luminosa
e as suas asas de carne purificada
cantam os hinos pelos quais esperamos  um dia salvar-nos
de não sermos quem somos  um dia lembrar-nos
de como seremos uma raíz celeste que sobe
até à copa dos astros que nos semeiam









quarta-feira, 28 de novembro de 2012

haiku












o dia nasce dentro do azul
ascende ao céu um pombo
estalando as asas no lombo












sexta-feira, 9 de novembro de 2012

the glorious land




the glorious land        ( soundtrack PJ Harvey)


este meu corpo não é apenas um cume de carne em forma de corneta
erguida troando a inocência selvagem que respira
o meu lobo solitário no campo de batalha anunciando
o amor o amor o amor
cada vez mais vivo jorrando jorrando jorrando
de cada ferida em floração o amor
cada vez mais vermelho intenso subtil florido
como as abelhas tontas pelo aroma do pólen dançando 
nos pulsos do tenente exangue no campo de batalha
mas ainda ainda ainda com a expressão da amada estampada
nos lábios sorrindo entre os dentes e a língua
quase morta ainda molhada


e por quem somos e somos e somos
esta massa humana gloriosa esta trágica história
se somos e somos e somos esta taça mergulhada erguida
do nosso próprio riso suado de loucura


que sim que também somos a nossa própria armadura
a nossa própria corneta a nossa própria carne
a nossa própria memória a nossa própria redenção
iluminando o caminho do nosso próprio amor a nossa
infindável glória oh glória oh glória oh glória
somos nós nascidos da nossa mais pura
simples inverosímil convocatória


três vezes brindemos atravessando as barreiras as barreiras e as barreiras
do lado de dentro das barricadas jaz agora o inimigo
morto para a morte e renascido 
como amante sem fronteiras


três vezes brindemos atravessando as barreiras as barreiras e as barreiras
glória oh glória oh glória a nossa beleza brilhando
por dentro do dentro de todas as maneiras


glória oh glória oh glória
do nosso próprio riso suado de loucura
somos nós nascidos da nossa mais pura
nobre visceral convocatória