terça-feira, 17 de abril de 2012

história do dia



o dia chega ao fim da sua longa dinastia

e começa a dar a curva para o outro lado

perdura no ar o travo salgado

do justo esforço já desnatado

entretanto a noite chega

e despe os seus veludos

secretos chuveiros começam a tecê-las

o colchão arranca junto ao chão mas

o sono vai subindo com pés mudos

atravessa o tecto e rente às estrelas

colhe os sonhos mais polpudos




terça-feira, 13 de março de 2012

lua nova vida











hoje a noite trazia um rio de laivo triste

escondido nos últimos minutos

sou peixe de pouca escama procuro refúgios onde não existem

a não ser nas camadas lá do fundo

onde o silêncio é tão grande

que tolda a vista

não se vê nada é tudo

matéria sensível

o que posso fazer a não ser

contar os movimentos vermelhos das guelras

pedir perdão

rezar à deriva agradecer

cada bolha de oxigénio cada aniversário

cada vez que disseste meu amor

oh meu amor

quando sair deste rio quero abraçar-te com todo

o meu cardume de esperanças

sacudir as águas debaixo de um candeeiro solarengo

sonhar em voz alta que tudo é possível

tudo até um coração dorido deixar-se florir

ao ouvir o ritmo repetido

da ondulação

da luz do plancton

dos teus lábios abrindo

as minhas feridas com doçura







quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

the fighter bows





after so many rounds

the fighter liks and bows

a hundred wounds

to find his tune


a quiet strange lagoon

is waiting from the start

though he thought

it was to soon


in the blossom of his heart

he finds the world is just

a love dream shadow

and love he must


praying his own sin

the fighter diving in


a prayer and a sin

a fighter diving in





heart milk






slowly my heart

turns into milk

and as it slowly beats

turns into butter


i taste the world

becomes so sweet

though i still weep i now

no longer suffer









domingo, 29 de maio de 2011

porque sim









ou porque sim

ou porque lhes dói a a alma

ou porque têm medo

ou porque lhes pisaram um pé

ou porque um cão lhes rosnou de manhã

ou porque não sabem se vão receber ordenado nesse mês

ou porque o gato por vezes não lhes liga nenhuma

ou porque não gostam de se ver ao espelho

ou porque ouviram alguém a dizer mal

ou porque sonharam demasiado nessa noite

ou porque desconfiam da sinceridade da cara metade

ou porque lhes soou estranho determinado elogio

ou porque tiveram que escolher entre dois compromissos

ou porque um amigo não respondeu da mesma maneira

ou porque um ponto negro apareceu sem avisar

ou precisamente pelo contrário de qualquer um destes contrários

as pessoas contam histórias


porque sim porque não ?

porque não lhes dói a alma

porque não têm medo

as pessoas contam histórias


ou porque são pessoas

ou porque são pessoas que contam histórias

que contam histórias porque são pessoas






segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

fita magnética












uma fita magnética a registar a tristeza

na pista interior da memória

na outra pista

uma imagem dos meus pés a salpicar

as gotas na margem do rio


e chega o mar


as sensações atravessam-me de um lado ao outro inundando

tudo o que sou enquanto me lembro

várias fitas magnéticas entrelaçam-se internas à cabeça

penetram na almofada à medida que registam

a minha vida misturada em várias pistas paralelas


as memórias são fitas magnéticas

são janelas viradas para o mar


e os pés continuam as pistas

o mar continua o rio

as cabeças continuam as almofadas


e o mar nunca deixa de chegar

nunca deixa de ser mar


e enquanto o mar atravessa o armário

todos os órgãos arrumados do meu corpo

lentamente devolvem a cabeça

aos tempos em que as memórias

não estavam ao contrário


aí nesse lugar onde finalmente

o mar continua a chegar

fundindo as costas do choro

nas costuras da alegria

aí nesse lugar podemos

finalmente todos um dia