quinta-feira, 26 de março de 2015

de cavalo a pássaro

ao herberto helder


A morte saíu à rua num poeta assim.
 Era um cavaleiro negro em cavalo branco, alma indómita, loucura adolescente.
 Outras vezes era uma árvore alada de galope equídeo,
 conheci-lhe as folhas à entrada do deserto.
 Todo eu guardava pedras em segredo e as pedras entrechocavam,
 ateavam a minha cidade ardida.
 As folhas olharam-me através da memória,
 o cavaleiro olhou-me através das folhas, eu era visto.
 A lança prateada rasgou-me os panos na fronte
 e a solidão não me cobriu até ao alto da cabeça:
 havia ramos e marcas na areia, ferraduras, esporas.
 Salvei-me nessa demanda, sobrevivendo aos versos que devorava à beira da noite.
Fiquei adulto sem nunca ninguém me ter compreendido a geometria das tripas,
 sem nunca ter sido desvirgindado senão por esses versos nocturnos
 que testemunhavam a minha realidade: 
estou vivo sobre o planeta e caminho descalço sobre o fogo.
 Lançaram-me esteiras, línguas de passagem.
A escola, os amigos, a família, e eu persistindo na pureza da minha orfandade.
Não sei se pertenço. Não sei se sou.
Talvez encontrasse aqui e ali algumas forças no peditório de um deus adormecido,
 esmolas que não chegavam para ser alguém que alguém pudesse reconhecer nos pergaminhos.
 Fui sempre estranho neste planeta.
 Só os ramos dessas rimas incertas e selvagens que o homem largava do cavalo sem descer do dorso;
 só essas côdeas como leituras a levantar fervura,
 só essas réstias me esqueciam as farpas de não pertencer,
 não ter igual a quem consagrar o meu precipício.
 Anos depois chegou o trabalho e o Sol rodou, rodou demasiadas vezes sobre a Terra;
 nesse balanço hipnótico e regular, o meu coração amadureceu com as tâmaras.
Um dia então, fui poeta.
Sem a copa da árvore alada a velar-me o negro, sem cavalo branco sobre as costas,
sem galope e sem lança, mas poeta de escada pequena já era assunto que bastasse.
 Deixei de sonhar com desertos e esporas
e as marcas da areia eram agora resquícios das conchas a decorar-me a pele.
Acabei por descer do podium
e encontrar o amor e a vida embebida em seres que me eram secretamente iguais,
 sem levantar a voz da tarde nem desenhar gestos esquivos sobre os ombros.
 O homem negro no cavalo branco permaneceu como até aí, invisível,
 habitando no interior do espaço e do tempo, no interior do som,
 coreografando a vida secreta das células dentro das folhas.
 Foi sempre de uma transparência vegetal, desde o primeiro dia à boca do deserto,
 embora eu só agora descobrisse que a sua carne não se via, 
agora que já não precisava da sua imponente figura
a sua lança que apontava a linha no fim do monte
onde escrevia: sobreviver é por ali, .
 Bastava-me beber os seus vendavais
e aquecer-me na sua loucura incólume, intocável:
 nesse intervalo os meus dias cresciam frutos na curva ascendente do declínio:
 brihantes de nutrição, prontos a decompôr-se na terra.
 Depois, com o planeta já embriagado pelas contínuas voltas
do astro a queimar o firmamento, a morte desceu à rua num poeta assim.
 Nesse dia em que seria natural que tudo se tornasse mudo
 e tudo se deixasse de ver,
nesse dia em que os próprios animais que habitam as entranhas da terra
se curvaram numa vénia à sua passagem,
 nesse dia cá em cima nos andares mundanos da vida
 quebrou-se sem querer a cerimónia da respiração e do silêncio.
Pequenos, crescentes tumultos não souberam como não nascer.
Espuma, espuma.
 Não era só a lírica loucura do homem que vinha por dentro das veias.
Também o seu sangue invisível desnorteava as orelhas agudas do ruído.
 Confundia os protocolos das colmeias,
atrapalhava as frágeis danças das abelhas
 quando as suas espirais de mel e pólen aspiram alimentar a humanidade,
 para o bem da humanidade, para o bem da humanidade.
 Nesse dia que a morte chegou à rua, as frases de circunstância
nesse dia os media, as editoras, os fãs a querer vencer o campeonato do afectos,
 nesse dia tudo isso e assim tanto, e eu como alguns de nós,
 alguns de nós que afundam os braços e os olhos atordoados na barulheira que a todos nos salpica: como pode o simples deslize daquele mudo monumento para o outro lado da existência
 fazer saltar tanto grito e tanta nódoa
pelas ruas que o branco mantinha tranquilo à distância de uma respiração quieta?
 Sabemos que não é produtivo combater a espuma. 
A espuma acontece e pousa por si. 
Afortunadamente, temos no nosso íntimo a força da onda. 
Afortunadamente temos a doce serenidade que o fundo do mar oferece, porque mergulhamos.
 E já que mergulhamos, saibamos enterrar a cabeça
 na igualdade fundamental das coisas que nos escapam.
 Como os grandes mestres do espírito,
há poetas que no meio da multidão parecem tocar as nossas cordas, em particular.
 Porque nesse ramo onde eles chegam, já entroncou a raiz da vida humana.
 E nessa curva muito além dos seculares anéis de significados e sentidos,
 somos todos pertença da mesma gloriosa humanidade indivisa.
 Finalmente sei que sou humano
 e hoje enquanto a arquitectura da vida abre as portas do dique
que atravessa as almas para o outro mundo,
 não choro nem solto grande mágoa
apesar de muito cavalgar esse amor ainda suado
dos versos que me salvaram as idades da vida.
Apesar de amar o colosso equíneo que me pariu através da sua arte germinal.
 Não choro pois tanto silêncio carregava no dorso
 que quase não tinha gravidade.
 Subiu à fase dos pássaros, disse uma sua absoluta amante.
Voemos.