quarta-feira, 28 de novembro de 2012

haiku












o dia nasce dentro do azul
ascende ao céu um pombo
estalando as asas no lombo












sexta-feira, 9 de novembro de 2012

the glorious land




the glorious land        ( soundtrack PJ Harvey)


este meu corpo não é apenas um cume de carne em forma de corneta
erguida troando a inocência selvagem que respira
o meu lobo solitário no campo de batalha anunciando
o amor o amor o amor
cada vez mais vivo jorrando jorrando jorrando
de cada ferida em floração o amor
cada vez mais vermelho intenso subtil florido
como as abelhas tontas pelo aroma do pólen dançando 
nos pulsos do tenente exangue no campo de batalha
mas ainda ainda ainda com a expressão da amada estampada
nos lábios sorrindo entre os dentes e a língua
quase morta ainda molhada


e por quem somos e somos e somos
esta massa humana gloriosa esta trágica história
se somos e somos e somos esta taça mergulhada erguida
do nosso próprio riso suado de loucura


que sim que também somos a nossa própria armadura
a nossa própria corneta a nossa própria carne
a nossa própria memória a nossa própria redenção
iluminando o caminho do nosso próprio amor a nossa
infindável glória oh glória oh glória oh glória
somos nós nascidos da nossa mais pura
simples inverosímil convocatória


três vezes brindemos atravessando as barreiras as barreiras e as barreiras
do lado de dentro das barricadas jaz agora o inimigo
morto para a morte e renascido 
como amante sem fronteiras


três vezes brindemos atravessando as barreiras as barreiras e as barreiras
glória oh glória oh glória a nossa beleza brilhando
por dentro do dentro de todas as maneiras


glória oh glória oh glória
do nosso próprio riso suado de loucura
somos nós nascidos da nossa mais pura
nobre visceral convocatória















terça-feira, 30 de outubro de 2012

respirar







o poema nasce quando 


se limpa o espaço à volta


e as palavras podem brilhar









sexta-feira, 19 de outubro de 2012

terra






um planeta redondo inteiro
imerso no primeiro espermatozóide
acende faróis inteiros na consciência
quem sou  eu ?

um minúsculo astronauta dobrando joelhos gigantes
soprando papoilas vermelhas com amor de mãe
observando os globos dos olhos descendo com as pétalas
até pousar na coroa da Terra

todos esses mundos nascem dentro de mim
dentro do meu próprio astronauta que arrisca
novos passos em silêncio

eu sou a seiva sou a a raíz
da lava que acende a vida

as minhas pernas são feitas de terra vermelha
a minha barriga é um rolo de barro amarelo e luminoso
os meus braços foram plantados na massa verde das estrelas
a minha cabeça de príncipe é um asteróide violeta

todas as células do meu corpo
dão as mãos como crianças
dançando
as plantas dos pés na relva
celebram o caule a florescer em corola
soltando movimentos desenhados no infinito
com  o peito na cabeça e a cabeça no peito

sou uma fábrica de energia limpa
livre ilimitada gratuita

as minhas mãos são férteis como a terra
os meus dedos passeiam
anéis giratórios de luz
formando Tórus dentro de Tórus dentro de Tórus

respiro           amo           sinto

renasço           vivo           limpo

a minha nave são flores submersas
no magnetismo amoroso das árvores

afinal sou
um vazio tão fértil

as papoilas sobem os ventos ao contrário
como salmões vibrantes insurrectos
desejosos de nascer

a vida na terra acontece
como o riso dentro das estrelas




quinta-feira, 11 de outubro de 2012

beijo





a manhã subia pela terra
 cresciam sementes de ouro 
galopavam espigas de mel

apeado sem sela nem corcel
flori e apenas disse sim 
em vez de não


 e o sol quente 
na tua boca de repente
sabia a miolo de pão





segunda-feira, 20 de agosto de 2012

unseen






i bow and i bow 
before thy smile my queen
and though i know
your soul remains unseen

i´ll close my eyes to find
my heart´s not blind






quinta-feira, 2 de agosto de 2012

espaço











a minha cidade é feita de palavras

mas eu moro no silêncio entre as casas





















domingo, 29 de julho de 2012

pulmões abrindo












toda a tua alma sangra amor selvagem

os olhos soltam luz e lágrimas a boca
não diz o que não pode dizer-se a não ser
boa viagem meu amor fizemos tudo
o que pudemos e soubemos enquanto

uma alegria intensa atravessada pela mágoa
confunde as explicações já fora de época

somos apenas corações rugindo pureza
pulmões abrindo e fechando sementes
caules corolas e polpas de afectos
gargantas pedindo algumas sílabas
para diluir as contradições dentro
da taça da aliança sagrada

honro-te o fogo e a vida que agora
dispara para outro castelo

os tempos suspendem-se
a verdade transforma-se
da árvore da vida nascem as raízes
de outra vida renovada
outra luz
outra alvorada





gratidão







é uma força um vento sem corpo
impalpável  como desertos inteiros varrendo
os lábios sedentos suplicando por gotas de alma
atravessas-me as células com todos os teus camelos
de águas bravas ondulando
sobre as minhas costas ainda por crescer
os meus ossos como crianças à beira do oásis
as minhas folhas cardíacas, as minhas ramificações
os meus pulmões que aprendem vénias divinas
em cada sopro em cada riso em cada alimento
que me entra na boca posso sentir-te pé ante pé
compondo os passos que levam à grande lagoa
e eu oiço e eu rezo e rezo e rezo pela minha própria divindade
és tu és tu és tu que me fazes crescer para dentro de mim
e agradeço-te e agradeço-te e agradeço-te
tu és o divino milagre de olhos rasgados no presente
tu és o divino que eu sou ao acordar do meu sono muito antigo
e agradeço-te e agradeço-te e agradeço-te
porque sei porque sinto porque não há grandes nem pequenas razões
apenas o teu fogo a forçar-me a ser quem sou quando sou para além
da cabeça suspensa nos andaimes da cidade herdada em ruínas
tu és e eu sou onde os nossos mundos se separam e unem no absoluto
e toda a vasta imensa infindável gratidão rejubila agora
explodindo sorrisos de amor fulgurante





terça-feira, 17 de abril de 2012

história do dia



o dia chega ao fim da sua longa dinastia

e começa a dar a curva para o outro lado

perdura no ar o travo salgado

do justo esforço já desnatado

entretanto a noite chega

e despe os seus veludos

secretos chuveiros começam a tecê-las

o colchão arranca junto ao chão mas

o sono vai subindo com pés mudos

atravessa o tecto e rente às estrelas

colhe os sonhos mais polpudos