domingo, 5 de dezembro de 2010

fogo




o grande leão aproxima

a cabeça-cometa

puro lume

desdobrando um fio

em cada raio em cada pupila

a grande boca aberta acende

um rugido miado em paralelo

:o fogo é mágico e místico:

:sem chama não haveria corpo:

o fogo ilumina o sangue alimenta

cada uma das minhas células

penetra na terra

no ar na água que transporto

dentro de mim

recolho um pensamento feito de fogo

limpo o meu sistema sagrado

como os homens de fato de treino limpam

os estofos dos seus bólides no dia do senhor

:sem fogo o corpo seria gelo:

cristais parados transparentes

aguardam que o serviço doméstico

da alma os venha descongelar

a água flui para baixo

o fogo flui para cima

deus responde

a quem sobe

ou a quem desce

ou a quem ora ?

e o que é deus ?

uma chama violeta com braços

amarelos incandescentes

a decantar as pepitas do espírito


o grande leão
aproximou-se
falou
e os seus olhos disseram chamas


confirmaram que a partir de agora






segunda-feira, 29 de novembro de 2010

grão



um pequeno grão de voz denuncia

a manhã dentro da Tua garganta


um dedo quase a medo entra e toca no veludo

não percebo: porque é que o dedo não se espanta


dentro da Tua garganta

as pétalas explicam tudo




in "o céu dentro da boca"



quinta-feira, 25 de novembro de 2010

corpo celeste




quarenta e nove corpos celestes desaguam

no meu contentor de lágrimas

transbordam atravessam

pestanas e barragens

observo uma parte substancial do universo

a explodir-me as certezas pelo método hidráulico

do choro involuntário

sou mais uma obra de arte

da escultura das galáxias

a minha cabeça é um bloco de matéria a transformar-se

o meu coração é um bloco de matéria a transformar-se

todas as narinas pupilas todas as vértebras da vontade

todos os lírios das mãos a transformar-se

pela força gravítica da alma



são apenas gotas de água ,doce

pitadas de sal salpicado

aqui e ali

até apurar o desenho do destino


cabeça coração de cristal

finalmente cristalino






domingo, 14 de novembro de 2010

umbigo , alegria




uns fiapos de alegria incandescente

misturam-se nos canais que vão dar ao umbigo

suponho que o fígado e o pancreas

e todos esses tecidos inteligentes

ouviram falar da revolução antes de mim


eu apenas deixei de saber quem sou

de uma forma que me surpreende


já só consigo dizer: eu sou


e já é muito

diz a barriga em surdina




por favor vamos todos esqueçer tudo

vamos lembrar-nos de tudo

outra vez ainda virgem











terça-feira, 9 de novembro de 2010

ouvir, respirar
















pessoas com olhos fechados para sempre

vieram hoje dizer-me que podemos

respirar em conjunto

ouvir em conjunto


todo eu tremi nas fundações

senti frio no buraquinho

por onde o grande Ser

nos sopra raízes

com a essência da vida


sinto agora os pés nús

por cima de um riacho


e não sei se existo


dizem alguns índios que somos

apenas um sonho







domingo, 7 de novembro de 2010

sol nuvem











gentilmente o sol toca na nuvem

e a nuvem assim tocada

fica mais bela

gentilmente a nuvem agradece

e a gratidão da nuvem toca na luz do sol

e o sol assim tocado fica mais belo



e nós, homens e mulheres, agradecemos toda esta cortesia

e assim tocados ficamos mais belos




quarta-feira, 20 de outubro de 2010

edifício



















sou um edifício

a ruir quero dizer não consigo dizer

são só lágrimas é só corpo que não sabe conter

as emoções fechadas no armário

sou só eu a desfazer-me por dentro a refazer-me

aos poucos empilhando cabides com cabides

vazios da roupa que em tempos


sou agora um monte

de afectos sem estrutura forma coluna

sou um molho uma colecção de roupa nova

ainda espalhada no chão que vou pisar cuidado


ponho um pé de cada vez

as mãos apalpam

os olhos não sabem nada


eu

só isto

eu


a lavar-me nas minhas lágrimas

sou o meu próprio chuveiro o meu próprio sabão

as minhas próprias mãos ainda sujas


eu

tudo isto

eu


todos os dias um bocadinho eu


todos os dias que ajoelho no meu peito costelas

todos os dias que limpo o meu coração aortas soalho


as paredes mudam de lugar

as portas debaixo dos tapetes

as chaves deixaram de existir


sou isto uma semente caule flor tempo

uma forma vegetal a romper resplandecente através

do duro pavimento








quinta-feira, 29 de julho de 2010

serei rei






todas as águas do mundo

todas as fogueiras

todas as mulheres com quem mantive laços

e imaginei deitadas nos meus braços

pedindo por socorro serão um dia testemunhas

da minha própria coroa

de sombras


serei rei pela minha própria luz


todo o fogo da terra

todas as torneiras

todos os mim próprios a quem roí as unhas

e imaginei deitados nos braços da princesa

ideal e salvadora serão um dia testemunhas

da minha própria coroa

escrita em cruz


serei rei pela minha própria luz


pouso a espada a ilusão esqueço o brilho e o capuz

dobro o joelho peço perdão

agradeço o trono a luz o mel o pão

o meu pé na minha lama

a minha cara no meu chão


serei rei pela minha própria mão


abro a coroa de flores

solto as glórias solto as dores solto histórias que nem sei

eu sei que serei rei mas serei rei

da minha própria multidão


serei rei

do meu sagrado coração




terça-feira, 27 de julho de 2010

a voz do jacques brel






tenho os joelhos muito dobrados

na cadeira vermelha do cinema

a voz do jacques brel

atravessa-me o sangue

a humanidade sangra por dentro

da minha tremura

sou um ursinho de peluxe

tenho os membros a desmembrar-se

nas mãos de uma criança

a minha criança eu

a desfazer todas as armas

todas as armaduras de gestos

olhares palavras cofres-fortes

que me impedem de chegar

ao tesouro

eu a desmontar os meus joelhos

a desmontar a cadeira vermelha

a desmontar o cinema

a desmontar a minha voz

dentro da voz-casulo do jacques brel

eu a desmontar todo o meu mundo todo

espalhado no chão confiando

que o arrumador vai aparecer

com uma lanterna numa mão

e o livro

das novas instruções da vida

na outra




quinta-feira, 22 de julho de 2010

máscaras chamas
































bem entre os mamilos o meu vulcão

de sonhos incompletos explode

as suas máscaras em chamas e eu

dispo o uniforme não sou bombeiro

que chegue para tamanha floresta troncos

plantas que se alimentam das carnes da ilusão

viro os meus dentes contra mim dou pequenas

dentadas nos meus defeitos inventados

na grande fábrica de defeitos da humanidade

consigo roer a ponta das minhas garras diminuir

o tamanho das minhas mãos e tudo isto

mergulhado num lago de silêncio quase

manso como a pele indomada das asas

do anjo vindo para me despir os falsos

propósitos a vida respira por entre

os meus fantasmas desmonta o torno

que me aperta os pulmões

e ri-se na minha cara de criança

assustada pelas idades dos adultos sim

sou o meu próprio pai o meu próprio filho

a minha própria criação à solta

nos prados da infância por ganhar

sou uma corrida dois galgos gémeos

longilíneos galgando-me os tecidos

do coração por dentro das máscaras

das chamas do cheiro forte a ilusão queimada

os bichos caninos correm até gastar as patas

vislumbro um coto o viço de uma raíz a querer

brotar das minhas entranhas sou eu ?



sim peço perdão sinto muito amo-te

e cumpro os rituais da gratidão humana mas

quem sou eu podes dizer-me?

para onde olham estes olhos perplexos

falta-me talvez algum espaço entre as células

que deixam respirar os mistérios







quarta-feira, 21 de julho de 2010

nuvens incandescentes









oh fada das fogueiras travo doce no amargo da garganta

tens-me atravessado na tua espinha amorosa sem rédeas

onde os mundos largam as suas águas e os partos chovem

sem fim à vista por cima das nossas cabeças recém-nascidas

que preces são essas que castigos nos obrigam

a abraçar a luz do mundo ?

oh fada das fogueiras as tuas chamas iluminam ao queimar

as minhas ressequidas razões antigas as tuas chamas

acendem cristais junto ao tenro do miolo

disparam diagonais contínuas à cabeça

e eu rodopio atrás da minha cauda de cachorro

sim eu ladro e eu canto os meus próprios hinos e ganidos

mandados fazer no glorioso país da loucura ainda imberbe

ainda por podar selvagem livre como fruta ardendo

na boca das árvores tu fada das fogueiras

tu guerreira das nuvens incandescentes

tu domadora dos descrentes rasgas-me

ao alto a casca do peito e lambes

o doce recheio da ferida

como fazem os gatos ao curar