terça-feira, 27 de julho de 2010

a voz do jacques brel






tenho os joelhos muito dobrados

na cadeira vermelha do cinema

a voz do jacques brel

atravessa-me o sangue

a humanidade sangra por dentro

da minha tremura

sou um ursinho de peluxe

tenho os membros a desmembrar-se

nas mãos de uma criança

a minha criança eu

a desfazer todas as armas

todas as armaduras de gestos

olhares palavras cofres-fortes

que me impedem de chegar

ao tesouro

eu a desmontar os meus joelhos

a desmontar a cadeira vermelha

a desmontar o cinema

a desmontar a minha voz

dentro da voz-casulo do jacques brel

eu a desmontar todo o meu mundo todo

espalhado no chão confiando

que o arrumador vai aparecer

com uma lanterna numa mão

e o livro

das novas instruções da vida

na outra




1 comentário:

Susana Almeida disse...

é belo este sangue transparente.