segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

fita magnética












uma fita magnética a registar a tristeza

na pista interior da memória

na outra pista

uma imagem dos meus pés a salpicar

as gotas na margem do rio


e chega o mar


as sensações atravessam-me de um lado ao outro inundando

tudo o que sou enquanto me lembro

várias fitas magnéticas entrelaçam-se internas à cabeça

penetram na almofada à medida que registam

a minha vida misturada em várias pistas paralelas


as memórias são fitas magnéticas

são janelas viradas para o mar


e os pés continuam as pistas

o mar continua o rio

as cabeças continuam as almofadas


e o mar nunca deixa de chegar

nunca deixa de ser mar


e enquanto o mar atravessa o armário

todos os órgãos arrumados do meu corpo

lentamente devolvem a cabeça

aos tempos em que as memórias

não estavam ao contrário


aí nesse lugar onde finalmente

o mar continua a chegar

fundindo as costas do choro

nas costuras da alegria

aí nesse lugar podemos

finalmente todos um dia






segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

mergulho afundo




mergulho afundo

olhos dedos apalpo-me por dentro

avanço sem medir as raízes

a minha árvore medita no meio da floresta

atravesso o mundo nas galochas da infância

pés encostados aos mindinhos da inocência

embalados na descoberta alegre das coisas

a máquina do mundo abrindo as suas gavetas

de repente o que é isto o que se passa

uma massa esponjosa vermelho veludo uma tontura

a vida oferece-me o coração em primeira mão desde que há vida

deixo-me levar pelo susto ou embalo no extâse

a escolha é a mãe da experiência sussurram pirilampos

inseminando pequenas palavras luminosas no interior dos galhos

as minhas artérias ressentem-se revolvem-se recriam-se

eu agora em pé em frente ao coração

eu agora nú em frente ao coração

eu agora







sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

o mar sabe esperar






o mar sabe esperar na alegria








passaram séculos talvez milénios

enquanto a ave pousava devagar

as suas patas delicadas


o mundo pode abrir-se num segundo


a ave recém chegada observa

disfruta ama beberica

um sol posto na colina

das costas


que constantemente se viram

para acolher quem vem lá

quem nunca deixou de vir


o mundo é este infinito absurdo

esta beleza aterradora:


uma ave um tempo um sol


um mar de esperas traduzidas

na linguagem amorosa

do silêncio






sábado, 8 de janeiro de 2011

três safiras






uma semente de silêncio

destapa uma semente de luz



o fogo nasce no coração

dos olhos de um bébé

vive no umbigo de uma estrela

recém-nascida


todas as galáxias todas as mães

são árvores que herdaram

os ramos mais finos dessa luz

as folhas desse silêncio onde

cada grito é uma célula

a pedir alimento

cada átomo é um orfão

a fazer bolinhas de pão branco

a desenhar uma linha desde o miolo

da floresta até ao tesouro do lar

escondido na concha da mão


todos os seres humanos são orfãos de si mesmos

enquanto os ramos as raízes os abraços os beijos

enquanto a nossa copa o nosso corpo minúsculo

não entroncar no coração do gigante adormecido


as várias camadas do tempo conspiram agora a nosso favor


o gigante do amor estremece

reconhece três milagres três safiras e agradece

todas as vénias são preciosas


as várias camadas do tempo vêm pedir-nos para dançar

agora a nosso favor


o coração estremece




estremece







fotografia : miguel carrelo

três safiras (k)




Só aqueles que sabem olhar para uma árvore, para as estrelas, para as águas cintilantes de uma tormenta,

num estado de completo abandono, sabem o que é a beleza.

Este estado de visão REAL é o amor.



Krishnamurti



fotografia : miguel carrelo







domingo, 5 de dezembro de 2010

fogo




o grande leão aproxima

a cabeça-cometa

puro lume

desdobrando um fio

em cada raio em cada pupila

a grande boca aberta acende

um rugido miado em paralelo

:o fogo é mágico e místico:

:sem chama não haveria corpo:

o fogo ilumina o sangue alimenta

cada uma das minhas células

penetra na terra

no ar na água que transporto

dentro de mim

recolho um pensamento feito de fogo

limpo o meu sistema sagrado

como os homens de fato de treino limpam

os estofos dos seus bólides no dia do senhor

:sem fogo o corpo seria gelo:

cristais parados transparentes

aguardam que o serviço doméstico

da alma os venha descongelar

a água flui para baixo

o fogo flui para cima

deus responde

a quem sobe

ou a quem desce

ou a quem ora ?

e o que é deus ?

uma chama violeta com braços

amarelos incandescentes

a decantar as pepitas do espírito


o grande leão
aproximou-se
falou
e os seus olhos disseram chamas


confirmaram que a partir de agora






segunda-feira, 29 de novembro de 2010

grão



um pequeno grão de voz denuncia

a manhã dentro da Tua garganta


um dedo quase a medo entra e toca no veludo

não percebo: porque é que o dedo não se espanta


dentro da Tua garganta

as pétalas explicam tudo




in "o céu dentro da boca"



quinta-feira, 25 de novembro de 2010

corpo celeste




quarenta e nove corpos celestes desaguam

no meu contentor de lágrimas

transbordam atravessam

pestanas e barragens

observo uma parte substancial do universo

a explodir-me as certezas pelo método hidráulico

do choro involuntário

sou mais uma obra de arte

da escultura das galáxias

a minha cabeça é um bloco de matéria a transformar-se

o meu coração é um bloco de matéria a transformar-se

todas as narinas pupilas todas as vértebras da vontade

todos os lírios das mãos a transformar-se

pela força gravítica da alma



são apenas gotas de água ,doce

pitadas de sal salpicado

aqui e ali

até apurar o desenho do destino


cabeça coração de cristal

finalmente cristalino






domingo, 14 de novembro de 2010

umbigo , alegria




uns fiapos de alegria incandescente

misturam-se nos canais que vão dar ao umbigo

suponho que o fígado e o pancreas

e todos esses tecidos inteligentes

ouviram falar da revolução antes de mim


eu apenas deixei de saber quem sou

de uma forma que me surpreende


já só consigo dizer: eu sou


e já é muito

diz a barriga em surdina




por favor vamos todos esqueçer tudo

vamos lembrar-nos de tudo

outra vez ainda virgem











terça-feira, 9 de novembro de 2010

ouvir, respirar
















pessoas com olhos fechados para sempre

vieram hoje dizer-me que podemos

respirar em conjunto

ouvir em conjunto


todo eu tremi nas fundações

senti frio no buraquinho

por onde o grande Ser

nos sopra raízes

com a essência da vida


sinto agora os pés nús

por cima de um riacho


e não sei se existo


dizem alguns índios que somos

apenas um sonho